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Lei dos licenciamentos
Carta
de protesto vai ser entregue a Cavaco Silva
Comissão representativa das associações empresariais
nacionais quer alteração da lei do licenciamento comercial
A Associação Comercial e Industrial de Gondomar, juntamente
com mais três outras associações congéneres
- Bragança, Viseu e Coimbra -, reuniu-se, na passada terçafeira,
dia 8 de Abril, para acertar o texto final da carta a enviar ao
Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.
Subscrita pelas quatro associações em representação
de mais de uma vintena de associações comerciais de
todo o país, esta missiva tem por objectivo alertar o alto
dignatário para o problema dos licenciamentos comerciais.
Antes deste encontro tinha entretanto já sido realizada uma
outra reunião, mas desta feita em Viseu, no dia 29 de Março,
em que se juntaram na sede da Associação Comercial
do Distrito de Viseu, vinte e duas de Associações
empresariais de Norte a Sul do país, representativas de milhares
de empresários do sector comercial. Também ali o sentimento
generalizado foi o de desagrado.
O principal objectivo desta reunião, foi analisar os efeitos
nefastos e altamente lesivos para o comércio tradicional
da Lei n.º 12/2004 - "Licenciamento Comercial", e
decidir, sobre a organização de mecanismos de defesa,
para todos os empresários que viram os seus micro negócios,
irremediavelmente afectados.
De acordo com Graciano Martinho, presidente da Associação
Comercial e Industrial de Gondomar e um dos grandes impulsionadores
deste protesto oficial, "esta lei, veio pôr termo aos
imprescindíveis equilíbrios que devem existir, entre,
os diversos formatos da distribuição, contribuindo
para um excessivo aumento da oferta comercial, transformando Portugal
no terceiro país da União Europeia, com maior densidade
comercial e concentrando num pequeno número de empresas uma
grande quota de mercado provocando, o que no nosso entender, se
transformou em abuso de posição dominante".
Fazendo referência às conclusões retiradas deste
encontro em Viseu, em que o seu homónimo Gualter Mirandês
foi o anfitrião, o responsável refere ainda que "esta
situação, tem atirado para o desemprego milhares de
pequenos empresários do comércio e suas famílias,
que tinham nesta actividade o seu meio de subsistência, sem
que tenham direito a protecção no desemprego, originando
um profundo problema social". Esta é a razão
que está a levar as associações comerciais
a unir-se em protesto e levar a sua indignação contra
o Governo junto da mais alta figura de Estado nacional.
Com a carta final já devidamente concluida e dirigida a Cavaco
Silva pretendem então os representantes das associações
empresariais informar o presidente da República de que no
que toca ao problema dos licenciamentos, "não é
verdade que a proliferação de novos formatos de distribuição,
contribuam, para a criação de postos de trabalho e
redução do desemprego, como é frequentemente
anunciado, doutro modo, como se compreende a diminuição
do emprego no sector".
Na realidade, segundo Graciano Martinho, "verifica-se, a desertificação
dos centros urbanos das nossas cidades, e consequentemente o desaparecimento
de milhares de micro e pequenas empresas do comércio e esta
situação tenderá a agravar-se, porque as ruas
das cidades, deixaram definitivamente de ter condições
para competir com a feroz implantação das grandes
superfícies e centros comerciais".
Por outro lado, a aplicabilidade desta lei afigura-se ferida de
ilegalidades - refere ainda o documento que irá ser apresentado.
Tudo porque “faz assentar a decisão do licenciamento
em estudos e critérios, no mínimo, academicamente
muito questionáveis e em pressupostos de compromissos assumidos
cujo cumprimento por parte dos promotores jamais foi auditado. Por
outro lado, estão a ser licenciados inúmeros empreendimentos
sem que as respectivas comissões regionais ou locais tenham
sido convocadas como prevê a lei, apesar de também
esta figura estar, à partida, viciada porque contém
em si um manifesto desequilíbrio entre os interesses representados”.
Tendo em linha de consideração estes dados os dirigentes
associativos e suas organizações representativas têm
vindo a desenvolver um trabalho de sensibilização
junto do Governo da República e dos presidentes de municípios,
para este problema, "que começa a transformar-se em
tragédia para o comércio tradicional, sem que nada
tenha sido feito para alterar esta situação e repor
os devidos e necessários equilíbrios.
Pelo contrário, o licenciamento de grandes superfícies
e centros comerciais é cada vez maior e parece-nos até
que já assistimos a uma espécie de competição
entre autarcas para ver quem tem mais unidades comerciais deste
tipo" - pode ler-se ainda na referida carta.
Este documento vai inclusivamente mais longe e refere que "entretanto,
continua a apregoar-se hipocritamente a necessidade de revitalizar
os centros históricos, de criar medidas para defender o comércio
tradicional, continuando-se a licenciar desenfreadamente".
Cavaco Silva vai ainda ser alertado para a resolução
tomada na reunião de Viseu, no sentido de se enveredar pela
via jurídica, por forma a responsabilizar-se os autores por
este estado de situação e obrigá-los em sede
própria "a assumir as suas responsabilidades perante
milhares e milhares de pessoas que ficaram impossibilitadas de exercer
com dignidade a profissão de comerciante que, durante tantos
e tantos anos, possibilitou a tanta gente criar os seus próprios
postos de trabalho”. Vai pois ser entregue a um conjunto de
juristas a defesa intransigente dos feridos interesses de milhares
de portugueses, mesmo que isso implique o recurso às instâncias
jurídicas europeias.
Para além disso refere ainda que foi decidida “a constituição
de um gabinete de apoio às empresas que pretendam iniciar
os seus processos de insolvência. Isto graças ao facto
de estar em curso um processo que está a levar ao encerramento
de milhares e milhares de pequenas empresas, com as consequências
económicas e sociais que isso provocará. É
nosso entendimento que chegou o momento de dizer basta".
"Basta" foi igualmente a palavra de ordem de Graciano
Martinho como representante da ACIG. Na reunião de 29 de
Março o dirigente marcou a sua posição mas
apontou também o dedo critico à Confederação
do Comércio e Serviços de Portugal, “pela ausência
de uma posição determinada, forte, na defesa das associações
filiadas e dos seus associados”. No seu entender, e uma vez
que a Confederação representa todas as associações
empresariais - o que significa que representa mais de 90 por cento
do tecido empresarial nacional que, por sua vez, permite um grau
de empregabilidade da população na ordem dos 75 por
cento e uma representatividade na ordem dos 40 por cento do PIB
(Produto Interno Bruto) -, deveria ser mais acutilante na apresentação
e contestação à posição que o
Governo tem assumido de ignorar tão importante mola do desenvolvimento
económico nacional.
Importante será referir que no que concerne ao documento
que irá se apresentado em Belém junto do presidente
da República, pode ler-se ainda que "é lamentável
que as associações empresariais que têm como
objectivo primeiro, promover o empreendedorismo, o investimento
e a criação de riqueza, se vejam agora forçadas
à criação de gabinetes e condições
facilitadoras ao encerramento de empresas".
Posto isto, ficará assim, o sinal de alerta junto de Cavaco
Silva, um alerta das associações empresariais que
temem que Portugal possa estar prestes a “enfrentar a mais
grave crise interna de sempre. Poderão vir a acontecer, a
muito curto prazo, a insolvência de milhares de empresas que,
a verificar-se, provocarão o colapso do nosso sistema económico
e do nosso sistema judicial".
A carta de protesto termina com um pedido das associações
para que Belém interceda junto do Governo no sentido de ver
a actual lei do licenciamento comercial alterada de forma consensual
e, em simultâneo, ver criado um regime de excepção
para atender especialmente os casos de insolvência que se
têm verificado.
in: Gondomar Económico ed. Abr08
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